domingo, 29 de abril de 2012

O lado branco da força.


Uma coisa é conhecer a história pelos livros. Outra é ver, ouvir, sentir a angústia daquelas pessoas que tiveram suas vidas interrompidas. É impossível sair do Museu do Apartheid do mesmo jeito que se entrou.
O princípio básico do apartheid era simples – segregar. Foi traçada uma linha rígida que separava, de maneira clara e indiscutível, todas as pessoas brancas das não brancas. E como não brancas eram enquadrados negros, mulatos, asiáticos.
Na entrada do museu somos divididos, aleatoriamente, em brancos e não brancos. Laura, branca. Eu, neguinha. Caminhos apartados. Um não se mistura com outro. Tudo bem, depois a gente se encontra. Mas é uma maneira bem didática de demonstrar como era a realidade.

Como está escrito no folheto do museu, ele não é um destino, é uma jornada. Tragédia e heroísmo. Tirania e liberdade. Caos e paz. Será?  
Nenhum momento do período é desprezado. Logo na primeira sala é possível assistir ao discurso do presidente de então (esqueci o nome), branco, justificar o regime de segregação. Sério: o sujeito dizia que estava fazendo uma África do Sul para todos, com cada um no seu devido lugar, onde todos seriam mais felizes. Nem o pior dos nazistas foi capaz de produzir uma declaração tão cínica assim. Depois, temos a deportação para dentro da própria cidade, a construção de Soweto pelos degradados, a vida sob o regime racista. Cruel.

E aí surge Mandela. Ousou desafiar tudo. Tomou tiro. Foi exilado em sua própria casa.  Queimou o passe que dava direito aos negros atravessarem a fronteira para trabalhar nas casas dos brancos. Causou. Chamou a atenção dos países democráticos (piada, até o Brasil, vivendo em ditadura plena, protestou). Por isso, passou 27 anos na cadeia. E não foi só ele. Foram vários os corajosos que tiveram a ousadia de contestar o sistema e que também acabaram sentenciados à prisão perpétua. Gente de valor.
Gente que me faz crer em parte da humanidade. Só em parte.
“Quando os europeus chegaram eles tinham a bíblia e, nós, as terras. Hoje, temos a bíblia e eles, as nossas terras”.

Assim como os tupis, os guaranis, os yanomamis no Brasil, os zulus e xhosas e outros povos da África do Sul, ninguém pediu para ser colonizado por um povo mal educado, que se vestia com jabôs, calças pescador e perucas. Mas foram os ingleses que primeiro chegaram. Mas eles até que foram bonzinhos. Só ensinaram inglês aos locais. E todos aprenderam. A coisa ficou esquisita quando os holandeses – aqueles que não conquistaram Olinda, chegaram e tomaram o poder. Não foi assim tão rápido. Mas um dia eles se consideraram donos do pedaço e decretaram, de um dia para outro, que a língua oficial do país era o Africaner.
Torre de Babel é pouco. Crianças na escola já não podiam aprender – a desculpa foi que as taxas pagas pela população branca para estudar não justificavam sustentar escolas para a população negra. Adultos não se comunicavam com seus patrões. O bicho pegou. Gente de brio.

“Quando ela chorava por sua irmãzinha morrendo de fome, lembrou que ela mesmo estava com fome”
Desculpaê, gente. O assunto é triste mesmo. As pessoas tinham fome em Soweto. E crianças foram assassinadas pela polícia só por reclamarem o direito de entender a língua do professor.
Hector Pieterson, personagem da foto tragicamente famosa, hoje tem um museu-memorial. Sua irmã trabalha lá. O amigo que carrega o corpo na foto está em lugar incerto e não sabido.
Soweto. Dá para parar de chorar?
Dá.  Despedi-me da África do Sul com muito orgulho daquela gente.







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