Eu era redatora de uma agência de propaganda legal, grande e, como toda multinacional, com muita vontade de expandir seus negócios na América Latina. Escritórios abertos em Buenos Aires e Santiago do Chile, o que fazer? Mandar alguém pra lá, de preferência que conheça o cliente, saiba todos os guidelines, ensine a fazer comerciais de fraldas e sabão em pó que agradem a matriz.
E lá fui eu. Moleca, solteira, sem compromisso e com uma imensa vontade de conhecer o mundo. Segundo meu chefe, perfeita para desbravar novos territórios. Só que naquele tempo não tinha internet, celular, e muito menos liberdade de expressão (aqui mesmo vivíamos em uma ditadura).
Embarquei por sei lá qual companhia área, cheguei em Buenos Aires e não havia ninguém da agência me aguardando. Esperei, olhei, quase chorei - tinha quase 19 anos e a minha grande experiência em viagens internacionais havia sido uma invencionice de chegar até Machú Pichu pelo trem da morte.
Desisti de esperar pelo transfer e peguei um táxi. Menos mal havia um! Inesquecível adentrar na cidade e ver enormes bandeiras azuis e brancas desfraldadas por toda a cidade. E los hermanos, sempre tão politizados, gritando: Las Malvinas son Argentinas!
Meio que surpresa, meio que assustada, não sabia muito bem o que fazer. No hotel, pedi um vinho e liguei a televisão. Euforia total. Todos estavam certos que aquelas ilhas perdidas lá nos confins do extremo sul seriam, por fim e por direito, devolvidas.
Sem noção, achei tudo muito divertido. Meus colegas vieram me resgatar e eu passei dias e mais dias andando de bar em bar, comendo nos melhores restaurantes, indo a todos os shows. Amando Buenos Aires. Trabalhar que é bom, nada. E nem que quisesse voltar para o Brasil, não poderia: o espaço aéreo estava fechado para voos comerciais. Eu era refém de uma guerra que, nem de longe, era minha.
Por fim, e de volta à realidade, a Argentina rendeu-se, a euforia virou revolta e meu chefe me ordenou que eu saísse de lá imediatamente. Tudo bem, agora isso já era possível.
Mas até hoje eu acho que o Leigton Gage gostava muito de mim.
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